Olhar feminista sobre a pandemia

Trazer um olhar sobre a pandemia e o quanto ela afeta de maneira bastante negativa, sobretudo, as mulheres. Esse foi o mote para o bate-papo com a jornalista Carolina Vicentin que é mãe, co-fundadora e repórter especial da revista AzMina. A conversa foi ao ar dia 10/4, no instagram da @agdescomplica.

O início de seu envolvimento com o movimento feminista se deu pelo projeto AzMina que, inicialmente, era apenas uma revista. “Tudo começou com a jornalista Nana Queiroz, que reuniu umas amigas que estavam incomodadas com a forma com a qual as mulheres são retratadas nas revistas. O estopim para o lançamento da revista foi em 2014, quando foi divulgada uma pesquisa na qual 25% dos homens ouvidos diziam que uma mulher usando roupas curtas merecia ser estuprada. Foi quando surgiu a campanha ‘Eu não mereço ser estuprada’. E a revista começou a se organizar depois disso. Hoje AzMina é um instituto sem fins lucrativos e a revista é o braço mais forte dele”, relembra Carolina.

Além das ações do instituto, AzMina seguem fazendo jornalismo feminista gratuito, graças à doação dos leitores e leitoras. Isso porque a imprensa como um todo passa por uma crise. De acordo com a jornalista, o digital chegou mudando completamente a lógica de produção, abrindo muitas outras possibilidades. Nesse sentido, ela aponta algumas iniciativas que admira, como a Agência Pública e Ponte Jornalismo.

Recentemente, AzMina se uniu a outras iniciativas de coleta de dados e da agência de conteúdo É Nois, a Revista Gênero e Número e Volt Datalab para cobrir a situação das mulheres durante a pandemia. “Nós mulheres somos as que mais vamos sofrer os impactos, tanto os econômicos, quanto sociais, do convívio. Essa é a ideia dessa cobertura da pandemia”, observa.

A jornalista aponta que é importante trazer um olhar diferente do que tem sido feito e divulgado no que se refere ao papel da mulher na nossa sociedade. “Agora na pandemia, temos uma situação que são os trabalhos considerados essenciais e que são desempenhados majoritariamente por mulheres. Uma das reportagens da AzMina é sobre as enfermeiras que são em sua maioria mulheres e que estão na linha de frente da pandemia. Estão mais expostas ao risco. Da mesma forma as que estão nos caixas de mercados. Sem falar das trabalhadoras informais que prestam serviços e que também estão em uma situação terrível, sem ter o que comprar de comer para os filhos e se sujeitando a sair para trabalhar: domésticas, manicures, massagistas”.

Carolina também falou das desigualdades entre gêneros que com o isolamento se acentuam. “Nós mulheres falarmos de sobrecarga, de jornada tripla e isso não é exatamente uma novidade. Essa já é uma realidade. O que tem ocorrido agora com o isolamento e que pode mudar algo lá na frente é uma nova visão sobre a cultura do cuidado. Na nossa sociedade patriarcal, onde o machismo é profundamente arraigado, recai sobre nós a responsabilidade do cuidado. São as mulheres que deixam seus empregos para cuidar das crianças pequenas, são as mulheres que na velhice vão cuidar dos pais e dos doentes, a maioria das empregadas domésticas, cuidadoras, enfermeiras. É um trabalho dito feminino. São funções essenciais e extremamente desvalorizadas. Tanto que quando essas funções são desenvolvidas pelas mães, em casa. São trabalhos não-remunerados, invisíveis”.

Carolina lembrou de uma recente entrevista que a professora e doutora Débora Diniz deu em que ela traz uma análise sobre a oportunidade que se abre neste momento. Ao expor a todos ao caos da vida doméstica, pode ser que esse olhar venha a mudar após toda essa situação. “Espero que a atualidade mostre tudo o que vocês estão vivendo e vendo agora, as mulheres é que sempre fizeram. Ela vê esse momento como uma oportunidade de termos um olhar mais feminista sobre as coisas”.
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Diante da pandemia da Covid-19 que tomou conta de todo o mundo nas últimas semanas, nós da Agência descomplica resolvemos aproveitar essa oportunidade no nosso canal no instagram para fazermos lives diárias com nosso público. A ideia é estabelecer pontes, traçar caminhos de harmonia e diálogo com temas que não só dizem respeito à crise, empreendedorismo, pequenos negócios, mas também de como enfrentarmos esse momento de forma mais equilibrada, tanto financeiramente quanto fisicamente e psicologicamente.

Gostou do texto? Então, confira o bate-papo completo com Carolina Vicentin, no nosso canal do YouTube. Compartilhe, espalhe essa mensagem! Quanto mais pessoas tiverem acesso, mais tranquila e bem informada será a quarentena de todos.

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